Documentário: Por que a Grã-Bretanha está desligando seus próprios parques eólicos?
Documentário: Por que a Grã-Bretanha está desligando seus próprios parques eólicos?
Descrição:
Os parques eólicos escoceses geram quase metade da energia eólica da Grã-Bretanha, mas, em 2025, turbinas da região receberam £350 milhões para serem desligadas. Ao mesmo tempo, a Grã-Bretanha gastou mais de um bilhão de libras para ativar usinas a gás como substitutas. O custo total: £1,35 bilhão. E essa conta é repassada diretamente para os consumidores nas tarifas de energia.
Por que, então, está ocorrendo a limitação da energia eólica na Grã-Bretanha — e por que o problema está piorando?
Esta é a história das restrições de rede. O que são, por que acontecem e por que solucioná-las é um dos maiores desafios para alcançar uma energia limpa. Neste documentário, examinamos a infraestrutura e as barreiras de mercado por trás do problema: os gargalos de transmissão entre Escócia e Inglaterra que limitam o quanto de energia limpa pode ser enviada ao sul; as fronteiras B4 e B6 da rede, onde as restrições são mais severas; o papel do Operador Nacional do Sistema de Energia (NESO) no gerenciamento em tempo real; e por que o gás ainda domina em relação às baterias quando as restrições ocorrem.
Também analisamos as três soluções possíveis para o problema — e por que nenhuma delas é simples.
É por isso que a Grã-Bretanha paga para desligar o vento — e o que realmente seria necessário para parar.
Nossos guias são Robyn Lucas, Head of GB na Modo Energy, e Ed Porter, Diretor EMEA & APAC na Modo Energy. Juntos, eles explicam:
- Por que a Escócia gera quase metade da energia eólica do Reino Unido — mas não consegue enviá-la ao sul
- O que acontece dentro da sala de controle do NESO quando há uma restrição
- Por que a conta da limitação cresceu de algumas centenas de milhões em 2018 para £2,7 bilhões hoje
- Por que as baterias ainda não substituíram o gás
- O que investimentos em transmissão, armazenamento e reformas de mercado podem proporcionar
Capítulos:
0:00 Por que a Grã-Bretanha paga para desligar o vento
0:54 O problema do vento na Escócia explicado
1:36 O que é uma restrição de rede?
1:57 As fronteiras B4 e B6
2:44 Dentro da sala de controle do NESO
3:21 Por que o gás preenche a lacuna e onde as baterias se encaixam
4:35 O custo em duas partes da limitação
5:17 Como a volatilidade do preço do gás piora a situação
6:10 É normal limitar 30–40% da energia?
6:30 Solução 1: Construir mais transmissão
7:10 Solução 2: Mais armazenamento e flexibilidade
7:47 Solução 3: Reforma do mercado
8:35 Encerramento
Música licenciada via Artlist.
Imagens de arquivo licenciadas via Pond5 (por Everly).
Este vídeo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento.
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Transcrição:
Se você vê parques eólicos sendo desligados e usinas a gás sendo ligadas, é natural se perguntar: o que está realmente acontecendo? Isso está custando 1,4 bilhão de libras por ano. Mas o problema não é a geração eólica. O problema é não termos uma rede capaz de levar essa energia para onde ela é necessária — a demanda no sul.
Em 2025, parques eólicos escoceses receberam 350 milhões de libras para serem desligados. Ao mesmo tempo, a Grã-Bretanha pagou mais de um bilhão de libras para ativar energia de reposição em outros lugares, principalmente a gás. A conta total chegou a 1,35 bilhão de libras.
Esse valor é repassado aos consumidores. A realidade é que talvez essas turbinas estejam fazendo exatamente o que deveriam — sendo desligadas porque há energia eólica demais no sistema. Como chegamos até aqui? Vamos começar pela geração.
A Escócia é uma das regiões mais ventosas da Europa. Foram construídos quase 15 gigawatts de capacidade eólica por lá — cerca de metade de toda a frota eólica britânica. Os parques eólicos escoceses geram eletricidade, que é transportada ao sul para áreas de alta demanda — cidades como Londres, Birmingham e Manchester — através de linhas de transmissão.
As linhas que conectam a Escócia ao resto da Grã-Bretanha podem transportar cerca de seis gigawatts por vez. Em dias de muito vento, os parques podem gerar dez. Quatro gigawatts de energia limpa sem ter para onde ir. A rede enfrenta o que se chama de restrição.
Uma restrição ocorre quando se tenta passar mais energia por uma linha do que ela suporta. Se isso acontecer por muito tempo, a linha pode ser danificada. Para gerenciar essas restrições, os geradores — neste caso, os parques eólicos escoceses — precisam ser limitados, ou seja, desligados.
A rede é dividida por fronteiras de transmissão — linhas invisíveis no mapa que marcam onde os fios viram gargalo. A principal entre Escócia e Inglaterra é chamada de B6, mas a pior restrição hoje está mais ao norte, dentro da própria Escócia. É lá, especialmente no norte, que vemos mais restrições. A fronteira B4, no norte da Escócia, concentra muitos parques eólicos onshore e alguns offshore conectados, e é onde mais ocorrem restrições no sistema.
Quando mais vento tenta passar por essas fronteiras do que os fios suportam, alguém precisa intervir. Uma organização resolve isso em tempo real: o Operador Nacional do Sistema de Energia — NESO — responsável por manter as luzes acesas em toda a Grã-Bretanha, a cada segundo. Quando ocorre uma restrição, o operador na sala de controle vê que há geração demais em um ponto.
Se for, por exemplo, na Escócia — digamos que temos três gigawatts gerando, mas só há capacidade para enviar dois abaixo da restrição — será preciso reduzir em um gigawatt os geradores na Escócia e encontrar um gigawatt de energia de reposição abaixo da restrição. O parque eólico recebe o alerta — reduza a geração. Agora há uma lacuna a ser preenchida. Historicamente, a maior parte dessa energia de reposição vem de usinas a gás, que são flexíveis e podem operar enquanto durar a restrição — frequentemente de oito a doze horas, às vezes até dias.
Hoje, as baterias competem com o gás. Elas podem compensar parte da energia reduzida, mas têm duração limitada — talvez duas horas, enquanto uma usina a gás pode operar por muito mais tempo. O que as baterias fazem, e o gás não, é ajudar nos dois lados da restrição — armazenando energia excedente atrás dela e liberando na frente para substituir o que foi perdido.
Historicamente, o gás dominou. As baterias são mais baratas, mas sua curta duração e limitações no despacho pelo NESO fazem com que não sejam usadas em todo seu potencial. Quando há restrições, é fácil pensar que há erro — que o parque eólico não deveria ser desligado, ou o gás não deveria ser acionado. Mas a verdade é que cada elemento faz o que o operador do sistema instrui.
Quando os custos das restrições disparam, é mais um problema de desenho do sistema, ou de falta de capacidade de transmissão. Toda vez que o vento é limitado, há uma conta em duas partes.
Primeira: o parque eólico é compensado pela energia que deixou de vender. Não é um bônus, é compensação. A maioria dos parques modernos opera com Contrato por Diferença, que garante preço fixo por unidade de energia gerada.
Quando são instruídos a parar, cobram do operador a receita perdida pela energia que teriam produzido. Quando esses ativos são reduzidos, recebem compensação até esse valor, pois a limitação é considerada fora de seu controle. Essa é a menor parte da conta. A segunda parte é o que se paga pela energia de reposição, que varia conforme o mercado global de gás.
Ao depender do gás para gerenciar restrições, pedimos que as usinas a gás sejam ligadas, o que tem um custo atrelado ao preço do gás e do carbono. Esses preços podem ser muito voláteis. Se houver, por exemplo, uma guerra no Oriente Médio, o preço do gás sobe globalmente, e isso aumenta nossos custos de balanço. O custo de gerenciar essas restrições explodiu.
Isso representa um grande risco para atingirmos o net zero. A percepção pública é de que renováveis são caras, porque tudo que as pessoas veem é vento sendo desligado e dinheiro sendo gasto. Estamos gerando energia limpa, construindo infraestrutura — mas a estamos desligando. Qual é o sentido?
Pesquisas mostram que uma rede eficiente pode esperar limitar cerca de 5% da produção renovável. O problema agora é significativo: estamos desligando 30 a 40% do vento produzido na Escócia. Enfrentamos restrições graves que tornam o sistema mais ineficiente.
Como reduzir a limitação do vento e tornar a rede mais eficiente? A Grã-Bretanha tem três caminhos.
O primeiro: construir mais transmissão — mais fios, mais capacidade. Mas novas linhas podem levar até dez anos para ficarem prontas, e é preciso ser estratégico. Se resolvermos a B4 — ou seja, construirmos mais fios no norte da Escócia — eliminamos essas restrições. Mas aí teríamos mais restrições na próxima fronteira ao sul, a B6.
É como abrir comportas em um canal. A água flui para a próxima seção, mas é parada pela próxima comporta. Ou seja, seria preciso construir mais fios também no sul da Escócia.
O segundo: desenvolver mais armazenamento e flexibilidade. Construir e usar baterias em ambos os lados da restrição pode reduzir o custo e evitar o desperdício de energia limpa e barata. As baterias carregam durante períodos de excesso de vento e descarregam quando a rede precisa de energia. Colocadas em ambos os lados da restrição, podem gerenciar o fluxo, reduzindo a limitação sem precisar de grandes obras de transmissão.
Armazenamento de longa duração e flexibilidade da demanda também podem ajudar.
O terceiro: reformar ou redesenhar o mercado. Hoje, geradores em todo o Reino Unido respondem a um único sinal de preço nacional — que não reflete onde a energia é realmente necessária ou onde já há excesso. Uma abordagem locacional daria sinais reais sobre onde construir e quando gerar. Esse tipo de precificação não é inédito — redes no Texas, Califórnia e outros estados dos EUA já operam assim.
O governo britânico considerou uma reformulação total, mas optou por reformar o mercado atual. A ideia é que mudanças no preço nacional reformado tragam um sistema mais eficiente localmente. Ainda não sabemos como será na prática. E pode ser que, se não funcionar, voltemos a um sistema zonal.
O recurso eólico existe. A tecnologia funciona. Mas estamos construindo o sistema do futuro numa rede do passado. O vento da Escócia não é o problema.
É a resposta. Falta à Grã-Bretanha a infraestrutura para aproveitá-lo.





