27 January 2026

O novo Mercado de Capacidade da Espanha: O que sabemos até agora

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O novo Mercado de Capacidade da Espanha: O que sabemos até agora

A Espanha pretende lançar um mercado de capacidade que pode trazer receitas significativas de longo prazo para o armazenamento em baterias. No Reino Unido, o mercado de capacidade representou 10% das receitas de BESS em 2025, subindo para 15% no quarto trimestre.

Projetos de BESS espanhóis aprovados nos leilões principais poderão garantir contratos com duração de até metade da vida útil do ativo, proporcionando previsibilidade de receita para o financiamento dos projetos.

A proposta ainda está em discussão na Comissão Europeia e detalhes importantes permanecem indefinidos. O mais relevante são os coeficientes de desvalorização, que determinam quanta capacidade firme o BESS pode oferecer, e que ainda não foram finalizados.

Pontos-chave

  • A Espanha está lançando um mercado de capacidade para tratar preocupações sobre segurança do suprimento, e o armazenamento em baterias é elegível ao lado de geração e resposta da demanda.
  • Novos investimentos em BESS podem garantir contratos de até metade da vida útil do ativo, proporcionando previsibilidade de receita de longo prazo para financiamento de projetos.
  • Os leilões utilizam precificação pay-as-bid em vez de pay-as-cleared, tendo a capacidade firme (MW) como produto.
  • Os coeficientes de desvalorização determinarão quanta capacidade firme cada tecnologia pode realmente oferecer. Nos países europeus, os valores variam de 0,14 a 0,44 para BESS de 2 horas e de 0,28 a 0,67 para BESS de 4 horas.

Para saber mais, entre em contato com o autor - paulo@modoenergy.com

Espanha deve não atingir suas metas de confiabilidade

A Espanha está em uma situação delicada em termos de confiabilidade. Para manter o sistema sob controle, a instalação de novos ativos de BESS e renováveis deve avançar rapidamente para preencher o espaço deixado pela retirada progressiva das usinas nucleares e a gás.

A Red Eléctrica (REE), a ONS da Espanha, vem alertando sobre riscos de confiabilidade nos últimos anos. Em seus relatórios de avaliação de confiabilidade de 2023 e 2025, a Espanha não conseguiu ficar abaixo da meta de 1,5 horas de carga não atendida esperada, atingindo 2,34 e 2,41 horas, respectivamente.

A ENTSO-E, associação dos ONS europeus, também levantou preocupações sobre o tema. Em seus relatórios anuais de Avaliação Europeia de Suficiência de Recursos (ERAA), chegou a conclusões semelhantes às da REE.

No ERAA 2025, o sistema espanhol ultrapassou a meta de confiabilidade em todos os anos analisados. Mesmo o valor mais baixo, 6,37 horas em 2033, superou a meta espanhola em mais de 4 vezes. Por outro lado, o valor mais alto, 18,61 horas em 2035, foi mais de 13 vezes superior à meta.

Para enfrentar esses problemas, o governo espanhol anunciou em dezembro de 2024 que implementaria um mercado de capacidade. Esse novo mercado atrairia novos ativos de geração, armazenamento e resposta da demanda para fornecer capacidade firme. Era uma notícia muito aguardada pelos investidores, após a fracassada proposta de 2021.

Quando os provedores de capacidade devem estar disponíveis?

Os provedores de capacidade devem estar disponíveis durante as "horas de estresse", que são períodos em que a REE identifica risco de confiabilidade. Essas horas de estresse seriam limitadas a 10% das horas anuais e seriam publicadas antes do início de cada ano de entrega. Isso daria aos provedores de capacidade visibilidade para planejar manutenção e operações comerciais.

Para BESS especificamente, isso significa garantir o estado de carga e a disponibilidade para despacho durante essas janelas. O não cumprimento dessas obrigações de disponibilidade acarretará penalidades, detalhadas em procedimento operacional futuro.

Como funcionarão os leilões do mercado de capacidade?

O mercado de capacidade utilizará leilões competitivos para contratar capacidade firme de geração, armazenamento e resposta da demanda. A proposta traz três tipos de leilão: principal, de ajuste e transitório, cada um com diferentes prazos e objetivos.

Todos os leilões compartilham estas características:

  • Produto: Capacidade firme, calculada como a capacidade instalada de um ativo multiplicada por um fator de desvalorização específico da tecnologia.
  • Preço: Pay-as-bid. Você recebe o que ofertar, não um preço de liquidação.
  • Curva de demanda: Construída a partir de projeções de LOLE e do valor da carga não atendida.
  • Preço de reserva: Geradores existentes enfrentarão um teto de preço confidencial. Ofertas acima desse teto serão descartadas.

O modelo pay-as-bid cria uma complexidade estratégica. Em leilões pay-as-cleared, os investidores podem refletir suas reais necessidades de financiamento e receber receitas maiores se não forem a unidade marginal. Nos leilões pay-as-bid, para obter receitas acima das necessidades de financiamento é preciso ofertar preços maiores, o que aumenta o risco de não ser selecionado.

Novos geradores aprovados no leilão poderão obter contratos de até metade da vida útil dos ativos, com limite de 15 anos. Ativos existentes só serão elegíveis para contratos de 1 ano.

Qualquer ativo aprovado no leilão poderá negociar sua capacidade firme, junto com as obrigações e receitas potenciais associadas, com outro ativo em um mercado secundário após o leilão.

Os fatores de desvalorização determinarão as receitas dos BESS

O fator de desvalorização é talvez o elemento de design mais importante para potenciais investidores. No entanto, a proposta do mercado de capacidade deixou o processo de cálculo desse fator quase totalmente indefinido. Ainda assim, podemos comparar como outros países com mercados de capacidade determinam o fator de desvalorização para BESS e os valores usados nos leilões mais recentes.

Os países analisados calculam o fator de desvalorização do BESS considerando o impacto marginal desses ativos na confiabilidade do sistema, ou pelo quanto eles geram quando o sistema mais precisa. Por outro lado, tanto o Reino Unido quanto a Irlanda ampliam esses fatores marginais considerando o impacto de toda a frota de BESS.

As diferentes metodologias de desvalorização e as matrizes de geração dos países resultam em fatores de desvalorização que variam entre os países. Por exemplo, os fatores vão de 0,04 para um BESS de meia hora na Irlanda até 0,93 para um BESS de 8 horas no Reino Unido. As estimativas iniciais da REE variam de 0,27 a 0,70, em linha com outros mercados europeus.

Para um BESS de 2 horas, os fatores de desvalorização europeus variam de 0,14 a 0,44. Já para um BESS de 4 horas, os valores vão de 0,28 a 0,67.

O que vem a seguir para investidores de BESS na Espanha?

A proposta precisa de aprovação da Comissão Europeia antes de ser implementada. Dúvidas importantes ainda incluem a metodologia final de desvalorização, estrutura de penalidades para falhas de disponibilidade e o cronograma para os primeiros leilões.

Os investidores devem acompanhar de perto as decisões da REE sobre o fator de desvalorização. A diferença entre um fator de 0,27 e 0,70 mais que dobra a capacidade firme que um projeto BESS pode oferecer, impactando diretamente as receitas dos contratos.