19 February 2026

Modo Energy Apresenta: Por que é tão difícil construir renováveis em Nova York

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Modo Energy Apresenta: Por que é tão difícil construir renováveis em Nova York

Modo Energy Apresenta é uma nova série documental sobre o setor de energia – e os bastidores dos mercados de eletricidade. Cada filme aborda um desafio real das redes, segue o dinheiro, a física e as políticas públicas, e explica (em linguagem simples) por que “basta construir mais renováveis” costuma ser uma resposta simplista demais.


Assista: Por que é tão difícil construir renováveis em Nova York?

​Nosso primeiro episódio vai até Nova York: um estado com algumas das metas climáticas mais ambiciosas dos EUA – e também com alguns dos maiores obstáculos para alcançá-las.

Música licenciada via Artlist. Imagens de arquivo licenciadas via Pond5 (por Everly).

Neste filme, Peter Berini (Diretor de Indústria da Modo Energy) explica por que descarbonizar a energia elétrica é um desafio único: a eletricidade precisa ser gerada e entregue em tempo real – e, ao contrário de outras commodities, ainda não conseguimos armazená-la em grande escala por longos períodos.

Essa realidade física se choca com a geografia, as instituições e os incentivos do estado de Nova York.

​A lei do estado exige 70% de eletricidade renovável até 2030 e 100% de eletricidade livre de carbono até 2040. Mas, em 2026, essas metas parecem cada vez mais distantes: quase metade da eletricidade de Nova York ainda vem do gás natural, e o estado construiu apenas uma fração da capacidade renovável prometida.

Então, por que Nova York tem tanta dificuldade em construir novas fontes renováveis?

A resposta não é única. São três fatores: tecnologia, burocracia e economia.

​Este documentário tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento.


1) Tecnologia: A rede é limitada pela física — e pela terra

A rede elétrica de Nova York é dividida em duas regiões:

  • Interior (Upstate): muita terra disponível, muita geração limpa (hidrelétrica, nuclear, eólica, solar).
  • Região metropolitana (Downstate – NYC e arredores): demanda enorme, pouca terra, e usinas antigas a gás difíceis de substituir.

Mesmo que o interior construa mais eólicas e solares, transportar essa energia para a região metropolitana é o gargalo.

As linhas de transmissão não são infinitas. A analogia de Peter é simples: elas são como tubulações de água, com limites para o “fluxo” que conseguem transportar.

E construir novas “tubulações” é lento e caro:

  • Milhões de dólares por quilômetro.
  • Trajetos que atravessam propriedades privadas, áreas protegidas, territórios indígenas e diversos níveis de governo local.

O resultado: mesmo quando a geração limpa existe (ou poderia existir), a rede nem sempre consegue entregar a energia onde e quando ela é necessária.


2) Burocracia: A fila de conexão é onde projetos vão para morrer

Não faltam interessados em desenvolver projetos em Nova York. Mas o caminho até a autorização é um dos mais lentos do país.

A NYISO (Operador Independente do Sistema de Nova York) administra a rede – pense em um “controlador de tráfego aéreo da eletricidade”. Seu papel é garantir confiabilidade: quando você acende a luz, ela funciona.

Um dos maiores entraves é a conexão: o processo para ligar novos projetos solares, eólicos e de baterias à rede. Esse processo passa por uma fila de conexão – na prática, uma lista de espera.

Em dezembro de 2025, a fila tinha ~27 GW em projetos de energia limpa. Isso é mais do que os cerca de 20 GW de nova capacidade renovável que Nova York precisa para cumprir a meta de 2030 – mas a grande maioria nunca será construída. Volume não é entrega. Os projetos enfrentam:

  • Depósitos elevados para entrar na fila.
  • Estudos de viabilidade e avaliações ambientais.
  • “Estudos em cluster” (modelagens complexas de transmissão para definir custos de reforço).

O mais difícil: os reforços de conexão podem representar uma fatia enorme do custo total do projeto.

​Os custos de conexão podem chegar a 60% do CapEx total em áreas congestionadas da fila da NYISO – tornando inviáveis, na prática, projetos que no papel pareciam viáveis.

Não surpreende que a maioria dos projetos não avance: “Eu diria que mais de 90% dos projetos não chegam à operação comercial.”


3) Economia: Nem toda energia limpa “necessária” se paga

Mesmo que um projeto supere a conexão e as licenças, o caso financeiro ainda pode desmoronar.

Construir em Nova York é estruturalmente mais caro

Contratos renováveis apoiados pelo estado geralmente exigem salários mais altos e regras de trabalho com aprendizado. Isso favorece empregos locais – mas eleva os custos em relação a estados como o Texas.

O desenho do mercado pode subvalorizar renováveis e baterias

Mercados de capacidade (pagamento para geradores estarem disponíveis em picos de demanda) nem sempre remuneram a geração intermitente como remuneram usinas despacháveis. A solar, por exemplo, é menos útil durante os picos noturnos, quando a demanda é maior (por volta das 18h às 21h).

E para baterias: o mercado de Nova York foi desenhado para evitar volatilidade extrema de preços – bom para o consumidor, mais difícil para o financiamento do armazenamento privado.


Incerteza regulatória: O vai-e-vem da eólica offshore aumenta riscos

O plano de descarbonização de Nova York depende fortemente da eólica offshore – mas a volatilidade das políticas federais pode esfriar rapidamente o apetite dos investidores. O filme mostra como mudanças abruptas (suspensões de licenças, disputas judiciais, reviravoltas) geram incertezas que afetam financiamentos e cadeias de suprimentos.


O que Nova York pode aprender com o Texas (sem virar o Texas)

Uma comparação recorrente no episódio é entre ERCOT (Texas) e NYISO.

O Texas historicamente adota uma abordagem mais “conecte e gerencie”: conecta mais cedo, gerencia restrições e reforços ao longo do tempo. Isso pode acelerar a implantação – mas também transfere riscos e pode gerar congestionamentos e cortes se a transmissão não acompanhar.

A grande pergunta para Nova York não é se quer uma rede mais limpa – isso é certo – mas se seu processo atual é capaz de entregar no ritmo exigido pelas metas.

O veredito de Peter sobre 70% de renováveis até 2030 é direto: “De jeito nenhum. Sem chance.”

Mas a questão não é pessimismo e sim clareza: ambição sem mecanismos de entrega é só discurso para a imprensa.


Principais lições (para investidores, desenvolvedores e formuladores de políticas)

  • O problema de Nova York é estrutural: falta de terra na região metropolitana, congestionamento de transmissão entre regiões e infraestrutura antiga.
  • A conexão é o gargalo: custos altos + prazos longos + incerteza sobre reforços = abandono de projetos. Em dezembro de 2025, mais de 27 GW de energia limpa estavam na fila da NYISO – representando bilhões em capital de desenvolvedores.
  • Incentivos de mercado importam: ativos limpos precisam de estruturas de receita bancáveis, não só metas.
  • Volatilidade regulatória aumenta o custo do capital: incerteza atrasa projetos mesmo quando a demanda é clara.

Perguntas frequentes

Por que o plano de energia limpa de Nova York não está funcionando?

Porque Nova York enfrenta um conjunto de restrições: pouco espaço próximo a NYC, gargalos de transmissão entre a geração do interior e a demanda da região metropolitana, um processo de conexão lento e caro, e uma economia de mercado que nem sempre viabiliza o financiamento dos projetos.

O que é a CLCPA?

O Climate Leadership and Community Protection Act é a lei climática de Nova York de 2019. Ela exige 70% de eletricidade renovável até 2030, uma rede livre de emissões até 2040 e neutralidade de carbono em toda a economia até 2050. Essas metas evidenciam o atual déficit de entrega.

Nova York está no caminho para cumprir as metas da CLCPA?

Não. O próprio Plano Estadual de Energia de 2025 reconhece que nenhum dos cenários modelados atinge a meta de redução de 40% das emissões até 2030. O Tribunal de Contas do estado relatou, por dois anos seguidos, que o cronograma está mais de três anos atrasado.

O que é a NYISO?

A NYISO é a Operadora Independente do Sistema de Nova York – a organização que opera a rede elétrica do estado e administra sistemas (incluindo conexão) para garantir confiabilidade e equilíbrio entre oferta e demanda.

O que é a fila de conexão da NYISO e por que ela importa?

É o processo e a lista de espera para que novas gerações (eólica, solar, baterias) sejam estudadas e aprovadas para conexão à rede. Em Nova York, inclui estudos de viabilidade e em cluster, podendo gerar custos elevados de reforço.

Como a fila de conexão da NYISO se compara a outros ISOs?

Mal, na maioria dos critérios. Projetos no ERCOT costumam levar cerca de dois ou três anos do pedido ao acordo de conexão; na NYISO, seis anos ou mais. NYISO, PJM, SPP e ISO-NE apresentam taxas de suspensão de Acordos de Conexão de 46–79%, contra cerca de 20% em ERCOT, CAISO e MISO. O problema não é exclusivo de Nova York – mas Nova York tem menos margem para erro.

Por que é tão difícil construir novas linhas de transmissão em Nova York?

O recurso renovável está no interior. A demanda está na região metropolitana. As linhas que conectam as duas regiões estão no limite. Construir novas custa milhões de dólares por quilômetro e pode levar mais de uma década para obter licença. Em dezembro de 2024, o projeto de transmissão Clean Path NY, de US$ 11 bilhões, foi cancelado devido ao aumento dos custos. Sem nova transmissão, não importa quanto se construa no interior.

O que aconteceu com o programa de eólica offshore de Nova York?

Está em sérios apuros. Em julho de 2025, a Comissão de Serviços Públicos encerrou o processo de planejamento de transmissão para até 8 GW de eólica offshore para Nova York, citando a paralisação das permissões federais. Em fevereiro de 2026, a NYSERDA cancelou completamente sua quinta licitação de eólica offshore. Esse é o tipo de volatilidade regulatória que paralisa financiamentos.

Como os mercados de energia de Nova York afetam o armazenamento por baterias?

O desenho do mercado de Nova York limita a volatilidade de preços da qual o armazenamento privado depende para obter retorno. Para compensar, a NYSERDA criou o programa Index Storage Credit, com meta de 6 GW de armazenamento em larga escala até 2030. No início de 2026, menos de 300 MW estavam operacionais na NYISO.


Sobre o Modo Energy Apresenta

Modo Energy Apresenta é nosso braço documental: reportagens globais, in loco, que explicam como os mercados de energia realmente funcionam – e por que a transição energética avança em alguns lugares e emperra em outros.

Se você trabalha com finanças de energia, desenvolvimento, políticas públicas ou operação de redes, esta série é feita para você: menos slogans, mais mecanismos.

Próximos episódios: mais mergulhos em mercados – e mais lugares onde a história não é “renováveis versus fósseis”, mas sim filas, fios, contratos e incentivos.

Modo Energy (Benchmarking) Ltd. is registered in England and Wales and is authorised and regulated by the Financial Conduct Authority (Firm number 1042606) under Article 34 of the Regulation (EU) 2016/1011/EU) – Benchmarks Regulation (UK BMR).

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